Corpo de verão: quando a comparação ocupa mais espaço do que o próprio verão

O verão não muda o corpo. Muda a quantidade de vezes que somos convidados a olhar para ele e a compará-lo.

Há menos roupa. Mas há muito mais comparação.

Praia, piscina, redes sociais: parece que, de repente, toda a gente está confortável com o próprio corpo. E, sem darmos conta, começamos a olhar para nós como se estivéssemos numa avaliação constante.

Compararmo-nos é um processo natural. O problema surge quando essas comparações passam a ser a forma como avaliamos o nosso próprio valor. “Porque é que eu não tenho aquele corpo?”, “Devia ter emagrecido antes do verão”, “Nunca vou sentir-me confortável assim”. Aos poucos, a comparação deixa de ser um pensamento passageiro e transforma-se numa fonte de insatisfação, vergonha e autocrítica.

Também é importante lembrar que tendemos a comparar os nossos bastidores com o palco dos outros. Nas redes sociais vemos fotografias cuidadosamente escolhidas, ângulos favorecedores, filtros e momentos específicos, esquecendo-nos de que uma imagem dificilmente representa a realidade na sua totalidade.

O problema é que, quanto mais nos preocupamos com a forma como somos vistos, menos conseguimos estar presentes naquilo que estamos realmente a viver. A atenção deixa de estar no mergulho, na conversa, no passeio ou no momento em família, para passar a estar constantemente focada no corpo, na roupa ou naquilo que os outros poderão estar a pensar.

Em consulta, vemos muitas pessoas que deixam de ir à praia, evitam vestir determinadas roupas ou recusam convites para momentos importantes. E não é, necessariamente, por causa do corpo. É, muitas vezes, pela forma como aprenderam a olhar para ele e a relacionar-se com ele. Pela crença de que só podem ocupar espaço, divertir-se ou sentir-se confiantes quando o corpo corresponde a um determinado ideal.

Vale a pena perguntar: estou a cuidar do meu corpo porque quero sentir-me bem ou porque sinto que preciso de corresponder às expectativas dos outros? A resposta pode ajudar-nos a distinguir entre autocuidado e pressão.

O verão não deveria ser um teste ao nosso corpo. O corpo que nos acompanha até à praia é o mesmo que nos permite caminhar, nadar, abraçar, rir e criar memórias. Talvez o desafio não seja ter um “corpo de verão”, mas permitir que o corpo que temos hoje participe plenamente no verão que estamos a viver.

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Sara Cruz

No nosso blog vai poder ler artigos escritos pelas nossas psicólogas sobre temas da atualidade e saúde mental.

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