Chegamos à altura das férias e, para muitas pessoas, estes dias parecem aproximar-se como uma promessa há muito aguardada. Depois de semanas ou meses marcados por responsabilidades, horários e exigências, nasce a expectativa de finalmente descansar, recuperar energia e usufruir do tempo livre com mais leveza. Há, muitas vezes, um desejo genuíno de abrandar, de estar mais presente e de reencontrar espaço para o lazer, para a família, para os amigos – e também para nós próprios.
No entanto, quando finalmente começamos a “desligar o motor”, percebemos que esse processo pode ser mais difícil do que imaginávamos. O corpo abranda, mas a mente continua em modo de alerta. O silêncio, a ausência de tarefas imediatas ou a simples possibilidade de não fazer nada podem despertar inquietação, culpa ou até uma sensação de desconforto. Surgem pensamentos como: “Devia estar a fazer alguma coisa”, “Tenho tanta coisa pendente” ou “Estou a perder tempo”.
Esta aparente contradição merece ser alguma atenção da nossa parte: se desejamos tanto descansar, porque é que, quando o descanso chega por vezes nos sentimos desconfortáveis? A resposta não é simples, nem igual para todos, mas pode estar relacionada com a forma como fomos aprendendo a associar o nosso valor pessoal e reconhecimento àquilo que fazemos e produzimos.
Para muitas pessoas, não fazer nada torna-se desconfortável porque o valor próprio ficou profundamente ligado à produtividade. Como se existisse uma mensagem interna, muitas vezes silenciosa, a dizer: “Se estou a fazer, sou útil; se estou parado, estou a falhar.” Quando esta crença se instala, o descanso deixa de ser vivido como uma necessidade legítima e passa a ser sentido quase como uma infração. Nestes momentos, é comum surgir a culpa, e esquecemo-nos de que a produtividade sustentável também depende do tempo livre, da pausa e do autocuidado.
Por isso, para algumas pessoas, descansar precisa de ser planeado, autorizado e até praticado. Nesse sentido, aqui fica uma estratégia simples que talvez o possa ajudar: marque o descanso na agenda como marcaria uma reunião importante. Reserve um espaço em que não precise de produzir, responder, resolver ou justificar-se.
Permitir-nos descansar é também permitir-nos cuidar de nós. E, tal como outras competências de autocuidado, descansar pode exigir treino. Não fazer nada não é necessariamente perder tempo; pode ser, pelo contrário, uma forma essencial de recuperar energias.




