Lesões não são só físicas: o papel do bem-estar na recuperação 

Quando pensamos em lesões, a imagem mais comum é a de um atleta afastado da competição. Mas a verdade é bem diferente: a maioria das lesões acontece fora do contexto desportivo; no dia a dia, no trabalho, em casa ou até em momentos aparentemente banais.

Uma dor lombar persistente, uma fratura após uma queda, uma cirurgia inesperada. Tudo isto são experiências que podem alterar significativamente a vida de qualquer pessoa. E há um aspeto que continua a ser subestimado: uma lesão não afeta apenas o corpo, afeta também a mente.

Recuperação

Hoje sabemos que a recuperação não depende apenas da gravidade da lesão. Sabemos que fatores como já ter tido dificuldades psicológicas, estar em situação de desemprego, ter menos suporte social ou até o tipo de acidente podem influenciar a forma como alguém lida emocionalmente com a lesão.1 Isso envolve, portanto, diferentes dimensões. O modelo biopsicossocial mostra que três dimensões estão sempre envolvidas:

  • fatores físicos (dor, mobilidade)
  • fatores psicológicos (emoções, pensamentos, motivação)
  • fatores sociais (apoio, contexto de vida)

Estudos indicam que estes fatores, em conjunto, explicam porque algumas pessoas recuperam bem, enquanto outras continuam com sintomas e limitações, mesmo após lesões aparentemente simples.2 Assim, modelos atuais em psicologia e saúde defendem uma abordagem biopsicossocial, onde fatores físicos, psicológicos e sociais interagem continuamente no processo de recuperação, demonstrando um impacto positivo na qualidade de vida global após lesão.3

O impacto psicológico das lesões

Após uma lesão traumática, é comum surgirem sintomas como ansiedade, tristeza ou maior sensibilidade ao stress, e essas dificuldades psicológicas após lesão têm impacto direto no funcionamento diário, na qualidade de vida e no regresso às atividades habituais.4 Estudos mostram que os sintomas psicológicos podem surgir logo nas primeiras semanas após a lesão, sendo relativamente frequentes nesta fase inicial; embora muitas pessoas apresentem melhorias ao longo do tempo, uma parte significativa continua a experienciar dificuldades emocionais posteriormente.5,6

Prevalência desse impacto

Sentir estes sintomas não é sinal de fraqueza, é uma reação comum. De facto, mais de metade das pessoas relata níveis elevados destes sintomas em algum momento durante a recuperação.7 Além disso, a investigação mostra que aquilo que sentimos nos primeiros meses pode influenciar a forma como vamos estar mais à frente. Pessoas com níveis mais elevados de ansiedade, depressão ou stress cerca de 3 meses após a lesão têm maior probabilidade de continuar com essas dificuldades mais tarde.7

Isto mostra-nos algo importante: cuidar da saúde mental desde cedo pode fazer diferença no processo de recuperação.

Cuidar da mente

Sintomas como ansiedade ou desmotivação podem interferir com a reabilitação, tornar o dia a dia mais difícil e até atrasar o regresso às rotinas habituais. Por isso, dar atenção ao bem-estar psicológico não é um “extra”, é parte essencial do processo. Falar sobre o que está a sentir, procurar apoio e acompanhar estes sinais ao longo do tempo pode ajudar a promover uma recuperação mais completa e equilibrada.

Mesmo em lesões mais “comuns”podem surgir:8,9

  • ansiedade e medo (de voltar a lesionar)
  • alterações na rotina
  • frustração e perda de autonomia
  • alterações de humor
  • sintomas depressivos
  • alterações na imagem corporal

A recuperação não é apenas “voltar ao normal” fisicamente, é também reorganizar a vida, adaptar expectativas e reconstruir equilíbrio emocional. É voltar a confiar no corpo, lidar com medos e expectativas, reconstruir autonomia e encontrar um novo equilíbrio. E, muitas vezes, é nesse processo que surgem aprendizagens importantes sobre limites, autocuidado e bem-estar. Se está a passar por um processo de recuperação após uma lesão, saiba que não precisa de lidar com tudo sozinho, e que cuidar da sua saúde mental é um passo importante para recuperar completamente.

O papel do bem-estar na recuperação

Cuidar do bem-estar psicológico não acelera apenas a recuperação, torna-a mais sustentável. Alguns fatores que fazem diferença:

  • Aceitação do processo: perceber que a recuperação tem tempo;10,11
  • Definição de objetivos realistas;12
  • Manutenção de rotinas (mesmo adaptadas);13,14
  • Apoio social (família, amigos, profissionais);15
  • Estratégias de regulação emocional (relaxamento, mindfulness, terapia).16,17,18 

Intervenções psicológicas, especialmente abordagens cognitivas e comportamentais, têm demonstrado utilidade no apoio à reabilitação e adaptação pós-lesão.19

Referências Bibliográficas

1. de Munter, L., Polinder, S., Haagsma, J. A., Kruithof, N., van de Ree, C. L. P., Steyerberg, E. W., & de Jongh, M. (2020). Prevalence and Prognostic Factors for Psychological Distress After Trauma. Archives of physical medicine and rehabilitation, 101(5), 877–884

2. Samoborec, S., Ruseckaite, R., Ayton, D., & Evans, S. (2018). Biopsychosocial factors associated with non-recovery after a minor transport-related injury: A systematic review. PloS one, 13(6), e0198352. 

3. Almeida, I., Guerreiro, S., Martins-Rocha, B., Dores, A. R., Vicente, S. G., Barbosa, F., & Castro-Caldas, A. (2016). Impacto de um programa holístico de reabilitação neuropsicológica na qualidade de vida de pessoas com lesão cerebral adquirida. Psychologica, 58(2), 61–74

4. Kendrick, D., O’Brien, C., Christie, N., Coupland, C., Quinn, C., Avis, M., Barker, M., Barnes, J., Coffey, F., Joseph, S., Morris, A., Morriss, R., Rowley, E., Sleney, J., Towner, E., & Impact of Injuries Study Group (2011). The impact of injuries study. multicentre study assessing physical, psychological, social and occupational functioning post injury–a protocol. BMC public health, 11, 963. 

5. Mason, S., Wardrope, J., Turpin, G., & Rowlands, A. (2002). The psychological burden of injury: an 18 month prospective cohort study. Emergency medicine journal : EMJ, 19(5), 400–404. 

6. Pearson, L. R., Timmer-Murillo, S. C., Schroeder, M. E., deRoon-Cassini, T. A., & Holena, D. N. (2025). Depression, Anxiety, and posttraumatic Stress Disorder After Traumatic Injury: A Temporal Retrospective Cohort Study. The Journal of surgical research, 316, 135–142.

7. Wiseman, T., Foster, K., & Curtis, K. (2015). Mental health following traumatic physical injury: An integrative literature review. Scandinavian Journal of Trauma, Resuscitation and Emergency Medicine, 23(1), 92

8. Kellezi, B., Coupland, C., Morriss, R., Beckett, K., Joseph, S., Barnes, J., Christie, N., Sleney, J., & Kendrick, D. (2017). The impact of psychological factors on recovery from injury: a multicentre cohort study. Social psychiatry and psychiatric epidemiology, 52(7), 855–866. 

9. Maddison, K., Perry, L., & Debono, D. (2023). Psychological sequelae of hand injuries: an integrative review. The Journal of hand surgery, European volume, 48(1), 33–40.

10. Hayes, S. C., Luoma, J. B., Bond, F. W., Masuda, A., & Lillis, J. (2006). Acceptance and commitment therapy: Model, processes and outcomes. Behaviour Research and Therapy, 44(1), 1–25.

11. McCracken, L. M., & Vowles, K. E. (2014). Acceptance and commitment therapy and mindfulness for chronic pain: Model, process, and progress. American Psychologist, 69(2), 178–187.

12. Locke, E. A., & Latham, G. P. (2002). Building a practically useful theory of goal setting and task motivation: A 35-year odyssey. American Psychologist, 57(9), 705–717.

13. Ehlers, A., & Clark, D. M. (2000). A cognitive model of posttraumatic stress disorder. Behaviour Research and Therapy, 38(4), 319–345. 

14. Fiese, B. H., Tomcho, T. J., Douglas, M., Josephs, K., Poltrock, S., & Baker, T. (2002). A review of 50 years of research on naturally occurring family routines and rituals: Cause for celebration? Journal of Family Psychology, 16(4), 381–390.

15. Cohen, S., & Wills, T. A. (1985). Stress, social support, and the buffering hypothesis. Psychological Bulletin, 98(2), 310–357.

16. Gross, J. J. (1998). The emerging field of emotion regulation: An integrative review. Review of General Psychology, 2(3), 271–299.

17. Kabat-Zinn, J. (2003). Mindfulness-based interventions in context: Past, present, and future. Clinical Psychology: Science and Practice, 10(2), 144–156. 

18. Hofmann, S. G., Sawyer, A. T., Witt, A. A., & Oh, D. (2010). The effect of mindfulness-based therapy on anxiety and depression: A meta-analytic review. Journal of Consulting and Clinical Psychology, 78(2), 169–183.

19. Archer, K. et al. (2022). Cognitive-Behavioral-Based Physical Therapy for Improving Recovery After Traumatic Orthopaedic Lower Extremity Injury (CBPT-Trauma).

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Sara Cruz

No nosso blog vai poder ler artigos escritos pelas nossas psicólogas sobre temas da atualidade e saúde mental.

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