Memórias sentadas à mesa, na ceia de Natal

Voltar a casa, para muita gente, é voltar ao lugar onde cresceu. Significa reencontrar pessoas, e reviver cheiros, memórias, e rituais familiares.

Mas para outras, voltar a casa é regressar ao lugar onde aprenderam a encolher-se e a moldar-se, abdicando da sua autenticidade. Nestes contextos familiares, aprenderam cedo demais que para se sentirem aceites, amados e valorizados, teriam de prescindir de algo; teriam de ser menos: menos incómodas, menos emotivas, menos exigentes. Menos elas próprias.  

E em épocas festivas, esta memória familiar tende a voltar com grandes exigências para aqueles que ao longo do ano puderam ser eles próprios.

Quase como se o Natal catalisasse toda esta dança familiar, cada um com um estilo diferente, um papel diferente. O filho responsável; a filha que não dá trabalho; o tio conflituoso; a prima inconveniente; o sobrinho que diz piadas para prevenir conflitos; a mãe que prepara tudo sozinha; e a avó que serve como que uma cola para todos aqueles elementos possam dançar, cada um por si, individualmente, mas para cumprir uma função – a manutenção do sistema familiar.  E, quase sem nos darmos conta, voltamos a representar versões antigas de nós mesmos. Versões que fizeram sentido um dia, porque garantiam pertença ou evitavam conflito.


Mas que hoje já não nos servem.

Há um cansaço silencioso que nasce daí.
Um sufoco que não vem do convívio em si, mas do ressentimento de todo aquele clima familiar, quando deixamos de nos escutar, para corresponder às expectativas dos outros.
Quando ignoramos os nossos limites, emoções e necessidades para manter a “paz”, o equilíbrio, a imagem.

Voltar ao “papel de sempre” pode parecer mais fácil. É previsível. É conhecido. E muitas vezes, a pessoa é altamente competente a cumpri-lo.
Não exige explicações nem confrontos. Mas tem um custo: o de nos perdermos um pouco mais, cada vez que correspondemos àquele papel esperado.

O verdadeiro desafio — e também o verdadeiro desenvolvimento — começa quando nos permitimos ser quem realmente somos, mesmo que isso desiluda, confunda ou incomode quem nos conhece há muito tempo.

E depois de todo este desenvolvimento individual, talvez “voltar a casa” possa, aos poucos, ganhar um novo significado: não o de regressar ao passado, mas o de não abandonar quem somos — mesmo quando estamos rodeados de quem nos viu crescer.

blog sara cruz clínica

Sara Cruz

No nosso blog vai poder ler artigos escritos pelas nossas psicólogas sobre temas da atualidade e saúde mental.

Procurar

Você também pode gostar